Por Leonardo Cappi Manzini
“O futuro é a primeira coisa que perde o
interesse quando se tem uma doença incurável.” E a sociedade sofre de ambos,
não?
Falar
de psicanálise fora das agendas acadêmicas e/ou institucionais, dos territórios
demarcados por seus “experts”, às vezes restritos e distantes de nossa
realidade Fronteiriça é um tanto arriscado.
Embora seja ao mesmo tempo um
delicioso convite, algo fora dessa necessidade positivada de linguagem
científica. Espero que o texto toque-lhes algo do sensível, que ao invés de
acomodar, incomode! Portanto optei nessa oportunidade, escrever algo mais
livre, mais solto, rizomático, nômade.
ENTÃO
VAMOS LÁ...
O
fato é que não somos tão imediatos assim. Não somos tão previsíveis e nem
estamos no controle como tentam nos fazer acreditar, trata-se de uma
experiência estruturante a partir do momento que entendemos e não ignoramos
nossa condição a partir do conflito original, portanto prescindimos de uma
ética.
O eu
é como uma bóia num mundo flutuante. Toda a imensidão submersa é o mundo de
maior riqueza e multiplicidade, outras linguagens, outras espécies de vida,
outras experiências, outros biomas-nixos-redes, outras forças, outras potências.
Se é que ainda existem. O fato de que devemos
controlar a todo custo algo que teima que escapa que se repete para além das
bordas e das fronteiras que traçamos entre nós e esse algo a mais que a
psicanálise enuncia que Freud (1905) chamou de inconsciente, parece ser
novamente um imperativo contemporâneo. Tomemos como exemplo a medicalização no
campo “Psi”, ela é uma proposta aceitável num mundo caótico e nitidamente adoecido,
o medicamento parece ser a única alternativa, pois todo o resto falhou. A vida
parece ter encontrado um equivalente meramente funcional e biológico, basta
estar indo e vindo, na rua como uma “barata
tonta”, mas funcional, “vivendo”. Quem sabe sempre foi assim, não! A idéia de um Humano Racional e Inventivo,
dominador, ponto maior da escala evolutiva é herança de um romantismo burguês
intelectualista, cortejado pela mística cristã e seu mundo interior
transformado em política etc.. Perdeu-se nas Utopias totalitárias, na sociedade
de classes, no hedonismo e na
coisificação capitalísticas, esvaiu-se junto com outras idéias e ideais no
cotidiano das mercadorias.
Caiu quem sabe ao nível do corpo, lugar de micro-utopias!
Resta a uma grande parcela da população a
mitigação da dor, da solidão, da certeza inexorável de sua finitude meramente
funcional, a vida foi reduzida ao seu mínimo biológico como diz Peter P.
Pelbart (2008) foi reduzida ao seu resto capitalizável. Bio-ortopedia social e
moral, produtividade, entretenimento, uma combinação que beira aos reinos da
ficção. Como eu digo; “o passado não é mais preto e branco”, Pode-se pensar, ao
ouvir ressoar-nos a sensação de que estamos no rumo certo, “Superamos tudo, diz
o “ideal do eu” contemporâneo:
Temos
pobreza, miséria, morte, exploração, mais prolongamos a vida para além das expectativas,
desenvolvemos as mais audaciosas tecnologias e engenhosidades, dominamos a
matéria, a natureza, e agora fazemos o domínio do que nos era mais distante e sábio,
produzimos realidades, entramos nos mundos dos perceptos-sensoriais, temos o
“grande arquivo”, tudo esta em algum lugar de algum jeito, criou-se uma mega-ecologia
maquíno-imagética do artificial, um ecossistema integrando-se e proliferando-se
nos tomando o domínio do real e do ficcional, pode-se ver além, o real se
multiplicou aos olhos, retornou-se infinito.
Essa
é a voz que parece nos inebriar, acreditar que alguém ou alguns devem estar no
controle disso tudo, aplaca parte de nosso mal estar. Que basta gerenciar nossa vida que tudo
estará bem. Sinônimo de bem estar e qualidade de vida. Como se, ao gerenciá-la
como manda o figurino estaríamos gerenciando o futuro de todos nós. Eis um
sentimento do individualismo conectado ou um resquício da co-autoria parricida
herdada e transmitida por práticas discursivas (máquinas meta-discursivas),
aquele sentimento de culpa e compaixão instaurado pela maquinaria meta-discursiva
religiosa? Onde essas duas pontas se ligam, ou nunca foram desligadas?
O Slogan “controle-se que tudo vai dar certo”
adquiriu um valor ético-estético, uma versão do cuidado de si no contemporâneo.
Volto à Psicanálise tomando de imediato uma entrada. Ela esta contida na
afirmação de que o “social é um sintoma” (Jerusalinsky, 1998), e ainda na entrada
seguinte, de que o “inconsciente é o social” (Lacan, 1979). Para nos aportar
diante da cena referida anteriormente, um fragmento das subjetivações do
contemporâneo. O inconsciente se renova, esta sempre nutrindo-se dos significantes produzidos, investidos pelo
social, como social. Como parte, expressão de uma experiência compartilhada,
nessa sensação de coletividade, de horda. A fantasmática pós moderna, a
fantasmática líquida, efêmera, dá a
linha, no entanto, há a produção do resto,
do algo que persiste, daquilo que escapa, daquilo que resta, do que fica
e do que passa. A crise dos significantes sociais parece estar produzindo uma
reviravolta nos campos pulsionais, na sua gramática de articulação sintática do
desejo. Essa reviravolta é sentida nas novas configurações dinâmicas e
econômicas do psiquismo, suas modalidades de sofrer e gozar.
Esse efeito se dá na possibilidade de que, o
sujeito, na medida em que desenvolve um auto-monitoramento de seus
processos cognitivos automáticos tenha
condições de controlar forças inconscientes que atuam pela mesma via, isto é,
pela via dos pensamentos, dos desejos, das intenções, dos gestos, em suma, da
linguagem, da necessidade de sentido em torno de um eu. Isso não exclui e nem desconsidera sua eficácia e legitimidade,
apenas serve de alerta a certas posturas dogmáticas no mundo das técnicas
“psi”. Mas voltando ao eu, um eu carece
de sentido, é constituído de sentido e pelo sentido, deve por excelência
mascarar o sem sentido, afastá-lo,
suprimí-lo. Quem possibilita tal organização é a linguagem, é o mundo da
linguagem com sua gramática de encadeamentos de significantes e significados
que possibilita ao eu ser uma instancia capaz de enunciar o vivente, o falante,
o simbólico, inclusive o sem sentido. Atribui-lhe a capacidade de nomear a si
-mesmo como um si e o outro como outro.
Para
ser, estamos sempre em ressonância com os outros, inclusive aquele outro
primordial, aquele lado obscuro de nós mesmos, utilizando as palavras de
Roudinesco (2010). È o outro que nos deseja, é o outro que nos
aliena ao seu desejo, e assim como
desejantes de ser desejados damos
sentido ao sem sentido, pelo menos
seguimos enquanto tentamos. Passamos o resto de nossas vidas à procura de algo
pra sempre irrecuperável, pra sempre perdido. Achamos aqui e ali apenas suas
pegadas, seus furos, seus buracos, alguns indícios de sua existência remota. No
apreço de alguns objetos, na vaidade de
outros, todos passageiros, hospedeiros do desejo que nos escapa sempre, mais
além, acolá, sempre mais longe, sempre outro, sempre em outro lugar, nômade. O
sentido sempre escorre pelos dedos da mão que nos afaga, num estimulante
desprezo, naquilo que nos impulsiona. É a linguagem que vem para organizar
aquilo que estava sob a égide do corpo, do erótico, é a linguagem que nos re-inaugura como sujeitos
desejantes. Desejantes de sentido, de nexo, de um a mais
do gozo. É o verbo enquanto substancia da carne que nos faz palavra e
discurso. Daí outro conflito, entre a organização erótica fundamental e o
erotismo submetido à linguagem. Somos camadas de conflitos, eis o vivo logo sou
(estou).



Antes de ler esse texto EXCELENTE, postei em meu FACEBOOK minutos antes, a respeito de Lispector e eu, amparada por Baco, as seguintes a respeito d Lispector...
ResponderExcluirEngraçado como a poesia por Filosofia, projeta-se como unânime em pensamentos...
Segue o q postei a respeito d Lispector, onde a mesma diz:
"Não entendo, apenas sinto. Tenho medo de um dia entender e deixar de sentir."
Clarice Lispector
ao meu ver, d certa forma, s encaixa em PSICOQUÊ?
o q postei: Lispector baby...no Mundo atual, que é o da MATURIDADE, aprendemos a Entender sim...porque às x não podemos sentir...e então, devemos procurar palavras para explicar a nós mesmos que algumas coisas não podem caber mais em nossas vidas...ISSO É MATURIDADE...SENTIR E SUPRIMIR, ENCARAR DE FRENTE E GUARDAR ALGUNS SONHOS, que existirão sim...somente em nossas memórias, como aprendizados...transformar em lição, Reprimir-se de uma certa forma.
Lembrar é Sentir...acorrentados a Paradigmas criados literalmente para DOUTRINAR O HOMEM. Entender isso...é Filosofar a Vida. Mais a frente com certeza, quando as lembranças existirem mais do que a própria ânsia d Existência, aí sim, no auge da Transmutação final, sentiremos SAUDADES d todos os SONHOS que REALIZAMOS e tbm dos que SUPRIMIMOS em função de escolhas...Essa Consciência de VIVER FELIZ a partir do que se ESCOLHE, é que deve permanecer em todos os momentos de nossas vidas...Mesmo porque não dá para trilhar vários caminhos ao mesmo tempo.
SIGAMOS INDIVISÍVEIS!
Gd Abraço!!!
Para esclarecer melhor meu ponto de vista, discurso a respeito da Consciência inconsciente de Multiversos...Existimos em vários níveis de Consciência e Inconsciência em variadas Atmosferas de Existência.
ResponderExcluirEu, Fabíola Kirita e Tadeu Kirita, lendo, refletindo "Psi" e Admirando nossas vidas e pensamentos, sentimentos e aprendizados d uma Existência Consciente...
ResponderExcluirParabéns pelo texto e contexto. PERFEITO!
obs. Eu lendo e Tadeu montando sua tese de ESPECIALIZAÇÃO em ORTODONTIA. Sempre cabe em nós.