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terça-feira, 19 de agosto de 2014

CONCEITO DE "VELHO" É UTILIZADO PARA REPREENDER PAPÉIS SOCIAIS

Por Edson Toledo

"É cada vez mais evidente que a idade cronológica, como uma variável definidora, não diz muito sobre o envelhecimento humano..."
Quase sempre as definições são ferramentas, muitas vezes armas, e não verdades, que podem nos levar a um alerta ao tirar conclusão de quanto é fácil criar classificações ordenadas que podem jogar qualquer pessoa dentro de um estereótipo. 

Um bom exemplo são as rígidas categorias de idade cronológica que podem limitar perspectivas, além de sugerir conclusões errôneas, especialmente num momento em que não fica claro quando exatamente começa ou termina uma. Vejamos, quando se diz que alguém é um recém-nascido, bebê, criança, adolescente, jovem, adulto, idoso?
Como devemos dizer terceira idade ou velhice? Responda quando começa a velhice depois dos 50, 60, 70? Pois é! As pessoas a sentem ou não, de que maneira a diversidade social e cultural pode influenciar seu desenvolvimento, e se há ou não algo intrínseco ou universal em relação a ela. Além disso, a ascensão da gerontologia cientifica e o declínio das crenças tradicionais e socialmente aceitas, sobre o significado e propósito da terceira idade, deixou um vácuo ou um sentido fragmentado do lugar da velhice no curso da vida.

O curso das atribuições categóricas continua a ser traçado, mas as fronteiras estão mudando rapidamente, uma vez que a longevidade crescente expande os limites da vida até os 80, 90 e 100 anos. Como resultado, a terceira idade tem sido identificada como sendo muito mais complexa e muito mais diferenciada do que se pensava algumas décadas atrás. Refletindo sobre o assunto, Schaie (1988) classificou três grupos sucessivos de idade entre 60 e 100 anos:

a) Aqueles entre sessenta e setenta e poucos anos que são parecidos com os de meia-idade - em termos de saúde e capacidade, embora muitos já não façam mais parte da força de trabalho;

b) Aqueles entre quase oitenta e poucos anos, um grupo composto em grande parte por pessoas que ainda vivem em suas comunidades, mas cuja saúde e competência comportamental começam a falhar;

c) Os "muito velhos". Que são pessoas entre quase 90 anos ou acima disso. Este terceiro grupo contém a maior proporção de idosos frágeis e institucionalizados, mesmo que uma minoria significativa continue em atividade de uma maneira notavelmente apropriada.

Somam-se aos delineamentos de estágio as descrições de processo do tipo sugerido pelo Ph.D James Birren (1985), quando escreveu sobre senilidade, velhice e geronticidade:

a) Senilidade é a dimensão biológica do envelhecimento humano, envolvendo os processos que aumentam a vulnerabilidade física e as probabilidades de morrer;

b) Velhice é o viver fora dos papéis sociais, que mais frequentemente tem sido classificado pela idade, de acordo com definições mais normativas e tradicionais de envelhecimento - definições que passam por mudanças dramáticas em nossos dias;

c) Geronticidade fala sobre autorregulação - por exemplo, sobre fazer escolhas, construir significados, desenvolver e manter interações com outros.

Os sistemas de classificação, como os descritos acima, fornecem pontos de partida para a ordenação das sequências de idade, especialmente nos dias de hoje em que os extremos de envelhecimento estão sendo testados e investigados. Tais sistemas podem ser úteis de muitas maneiras. Mas concordo com a psicóloga do desenvolvimento Marie Johada, pois abandonou as classificações tão sofisticadamente delineadas.

Gosto de lembrar que seu protesto contra os "compartimentos" de idade prescrita possa servir de lembrete de que é muito fácil escorregar para a discriminação de idade - aquele insidioso "preconceito em pensamento e ato contra o velho", que pode levar a sérias distorções na percepção sobre as pessoas mais velhas e na maneira de serem tratadas. Ainda mais, sugiro que as palavras da escritora Dorothy Sayers (1938), escritas em sua batalha contra a classificação negativa, sejam lembradas: "Uma categoria existe somente por seus propósitos especiais e deve ser esquecida assim que eles se cumprirem".
Reforçando essas preocupações, a psicóloga Berenice Neugarten (1916-2001), nos idos de 1970, alertou que as politicas e os programas dirigidos aos "velhos", embora tenham sido planejados para compensar a iniquidade e o prejuízo, podem ter efeito involuntário de somar-se à segregação de idade, de reforçar a percepção distorcida dos "velhos" como um grupo-problema, e de estigmatizar, em vez de libertar as pessoas mais velhas dos efeitos negativos do rótulo "velho". Parece-me que ainda essas preocupações povoam nossa mente e atos, décadas depois.

É cada vez mais evidente que a idade cronológica, como uma variável definidora, não diz muito sobre o envelhecimento humano, uma conclusão que reproduz a visão de Neugarten (1973) sobre o envelhecimento como um "todo sem emendas" e sua posterior definição sobre a idade como uma "variável vazia". O que ela via como uma influencia vital não era a idade cronológica em si, mas sim os eventos biológicos e sociais na vida de uma pessoa que moldam sua identidade. Sabiamente os psicólogos construtivistas expandiriam essas influencias para incluir os processos e aprendizados criativos, que modelam o significado e ativam os tipos de aprendizagem que se desenvolvem por toda a vida e que podem ajudar as pessoas a viver o mais criativamente possível.

Por fim, gosto da fala de Tânia Kaufman (1993), que ao trabalhar com grupo de sujeitos mais velhos, encontrou por parte deles uma grande flexibilidade na definição de si própria. Descobriu que quando pessoas mais velhas falam de si mesmas, elas expressam um sentido de si mesmas que não tem idade, uma identidade que mantém a continuidade, apesar das mudanças físicas e sociais que vem com a velhice. Elas podem descrever-se como "sentindo-se velhas" em um contexto e "sentindo-se jovens" ou "não velhas" em outro. Isso é sempre variável... Pessoas idosas não veem sentido propriamente no envelhecimento, tanto quanto percebem o sentido em estarem elas próprias na velhice, e só para nos lembrarmos e refletirmos de que frequentemente ouvimos de que velhice é quando vivemos fora do papel social classificado para a nossa idade.



Fonte: UOL

segunda-feira, 9 de junho de 2014

LOUCOS OU HERÓIS?

Apesar de passados alguns anos da pesquisa1, as lembranças do processo de aproximação com a escola e
seus educadores, sempre me faz pensar muito sobre os processos de trabalho, afetos e o significado de tudo isso em nossas vidas.

A potência encontrada nos profissionais que cotidianamente trabalhavam com crianças e adolescentes, em situação da mais absurda miséria e descaso, era uma constante. Ao mesmo tempo, a dificuldade na construção de ações que fossem efetivas era fruto de um permanente questionamento e desafio.

No ano de 2006, me aproximei da Escola Municipal de Ensino Fundamental Porto Alegre (EPA), para a busca de materiais do que seria a “pré-pesquisa” em Psicodinâmica do Trabalho (DEJOURS, 1999, 2004). Estive com os professores em sala de aula, em conversas informais, participei de atividades no pátio da escola, ações culturais e recreativas e juntei documentos do processo de construção deste espaço.

No processo de encontros do grupo, inicialmente, as falas trataram da história individual do trabalho de cada integrante, e de como chegaram à escola. Verdadeiras histórias de vida! Além disso, uma construção de como era trabalhar ali. Dos grupos iniciais, com apresentação de posições mais “queixosas”, e depoimentos individuais, foi se construindo passagem para manifestações coletivas, com a escuta da fala do outro, com muitas falas complementares. Foram realizados 13 encontros, durante 4 meses, semanalmente, por aproximadamente 1h e 30 min de duração. E quando veio finalmente o dia do último grupo, estava constituído um desejo pela continuidade deste trabalho, deste espaço que significou a possibilidade de ressignificar muitas coisas e/ou simplesmente começar a pensá-las.


AS BASES PARA A DISCUSSÃO

Acredito na perspectiva do trabalho como constituidor da identidade do sujeito e como forma de realização no campo social, na medida em que articula esta esfera e a vida privada do trabalhador. Então, utilizo o conceito proposto por Dejours (2004, p. 65), que nos diz que “[...] trabalho é a atividade manifestada por homens e mulheres para realizar o que ainda não está prescrito pela organização do trabalho.” Assim o trabalho, segundo o autor, é sempre “trabalho de concepção” e “por definição humano”, na medida em que o prescrito nunca é suficiente para dar conta da realidade. É necessário que seja criado, inovado, fazendo uso da inteligência e da capacidade inventiva do trabalhador.

A construção que cada trabalhador faz sobre seu sofrimento está ligada diretamente ao seu engajamento no social. E este engajamento, por sua vez, está em associação com o reconhecimento, advindo de sua contribuição, como sujeito, o que é uma retribuição fundamentalmente simbólica. Quando este reconhecimento permite ao sujeito, em relação ao sofrimento ou até mesmo à doença, adquirir um sentido nas relações sociais, o sujeito tende a se mobilizar para questões mais amplas, no espaço público. Mas se, ao contrário, este reconhecimento estiver muito aquém do esperado, o sofrimento só vai encontrar sentido no espaço privado, numa posição individual.

Em seus escritos, Dejours (2004, p. 62) apresenta dimensões do trabalho que não podem ser prescritas: “[...] todos os preceitos são reinterpretados e reconstruídos: a organização real do trabalho não é a organização prescrita.” O autor ainda afirma que “[...] a organização do trabalho em si é repleta de contradições.” (p. 63)

A construção de regras, normas, sua reconstrução e o aumento de sua complexidade chegam, muitas vezes, ao limite da impossibilidade da execução do trabalho. Para que a organização do trabalho seja ajustada à realidade de sua execução é necessária a interpretação (DEJOURS, 2004). Essa interpretação é múltipla, na medida em que há diferentes sujeitos envolvidos em sua construção. E para que essa interpretação ocorra são necessários debates e discussões entre os trabalhadores.

Segundo Dejours (2004), os trabalhadores constroem as “regras de ofícios” que compreendem a construção de acordos coletivos, a partir da cooperação. O espaço de aprimoramento da reorganização do trabalho necessita que haja visibilidade das dificuldades encontradas na execução do trabalho, assim como do sofrimento proveniente para os ajustes necessários entre o prescrito e o real. É necessário, então, que exista confiança entre seus pares para a exposição, muitas vezes, de questões delicadas relativas ao trabalho.

A partir da visibilidade do fazer2 do trabalhador, da confiança no grupo e da cooperação, é possível negociar e construir novos acordos normativos e éticos. Além disso, essa visibilidade também proporciona o reconhecimento do trabalhador pelo seu trabalho.

Dejours (2004) alerta, porém, que, para a cooperação ser efetiva é necessário que o trabalhador esteja disposto a renunciar a alguns aspectos subjetivos e a consentir com o coletivo.

Retomando o exposto anteriormente, é possível observar que o processo de trabalho funciona quando os trabalhadores mobilizam sua inteligência, individual ou coletivamente, em benefício da organização do trabalho. Vale salientar novamente, contudo, que é necessária a construção de um espaço em que os trabalhadores possam discutir o trabalho, resolver e deliberar em conjunto.


O EDUCADOR SOCIAL

Considero aqui o educador social que realiza trabalho de abordagem diretamente nas ruas, ou presta atendimento dentro de instituições. Este trabalhador também deve ser capaz de “responder a uma multiplicidade de demandas”, pois é convocado ao trabalho com pessoas marcadas pelo uso de substâncias psicoativas, atos infracionais, questões sobre a sexualidade, entre muitas outras, presentes na vida cotidiana destes sujeitos com histórias de vida na rua. Além disso, os educadores convivem com a privação de direitos básicos deste público, tais como alimentação, saúde, educação, moradia, lazer e a convivência familiar.

Segundo Freire (1985, p. 11), o trabalho do educador é político, ideológico e pedagógico e deve possibilitar que pense a prática: “Este pensar ensina também que a maneira particular como praticamos, como fazemos e entendemos as coisas, está inserida no contexto maior que é o da prática social.” Para o autor (1996), o processo de ação-reflexão-ação (práxis) possibilitará que o trabalhador social venha a ser um educador social, tendo consciência do inacabamento e apresentando rigorosidade metódica, criticidade, reconhecimento e assunção da identidade cultural. Igualmente, Freire (1996) demonstra a necessidade da apreensão da realidade, comprometimento, compreensão de que educação é uma forma de intervenção no mundo, liberdade e autoridade, bem como tomada consciente de decisões e disponibilidade para o diálogo.


A REALIZAÇÃO DA PESQUISA

Os objetivos da pesquisa envolveram a proposta de investigar a dinâmica saúde/sofrimento mental vivida pelos educadores sociais que atendem adolescentes em situação de rua, além de compreender a relação de prazer e/ou sofrimento no trabalho desses profissionais, bem como identificar as estratégias individuais e coletivas, construídas para o enfrentamento do cotidiano do trabalho.

Com o método em Psicodinâmica do Trabalho, que busca a compreensão dos aspectos psíquicos e subjetividade mobilizados nas relações de trabalho, e sua organização, foi possível construir respostas aos objetivos da pesquisa a partir dos encontros realizados com os educadores na escola.

Ressalto a seguir alguns aspectos dos comentários verbais feitos pelos trabalhadores que se destacaram na pesquisa, apresentados aqui resumidamente:

Sobre O trabalho do educador social, destaca-se A escolha, pois a maioria expressou o desejo de fazer parte desta escola e disse tê-la escolhido. Essa possibilidade de escolha sinaliza para certo nível de liberdade dos trabalhadores, ainda que a decisão sofra a interferência de diversos fatores. Conforme afirma Dejours (1999, p. 20), o sofrimento faz com que o trabalhador busque, no mundo e no trabalho, condições de auto-realização “[...] essa busca assume a forma específica de uma luta pela conquista da identidade no campo social.”

Há também uma questão ideológica em relação à escolha do local de trabalho, pois muitos educadores em seu percurso profissional já participavam de outros grupos ou serviços que tinham como principal atividade a garantia de direitos de crianças e adolescentes.

Nós estamos aqui para garantir os direitos do outro.

Quanto ao trabalho de educador social, afirmam que é muito mais do que ser professor. Conforme afirma Freire (1985), o trabalho do educador social vai além da formação para ser professor. Este educador vai se construindo numa prática mediada na relação com seu educando. Neste processo, há uma transformação que acontece em ambos. Há um constante repensar sobre a atividade de educador, a necessidade de estar planejando e acompanhando a dinâmica de vida dos alunos.

A proposta da escola é a de trabalhar a construção de um projeto de vida para os estudantes. Neste projeto, está incluída a possibilidade de saída da rua, com a formação para o trabalho, através de oficinas, e a inserção em espaços de formação profissional. Ao mesmo tempo em que querem que esse estudante possa ser independente e sair da escola, contudo, os educadores sabem da dificuldade que é inseri-lo em um trabalho externo à escola, principalmente, por sua história de vida. Está sempre presente a proposta de redução de danos, como um grande benefício para os estudantes. Além de a escola trabalhar nesta perspectiva, em relação ao uso e abuso de substâncias psicoativas, os educadores acreditam que a permanência, no espaço protegido, já faça essa redução, na vida do adolescente.

Para o grupo de trabalhadores, é quase unânime que há um prazo máximo de permanência na escola, podendo, com a saída desse serviço, evitar o adoecimento. Seria como um “prazo de validade psíquico”, anterior ao adoecimento. Um educador trouxe a questão do vencimento do “prazo de validade”.

Eu acho que as pessoas aqui na EPA têm um tempo. Eu não sei qual é o tempo de cada um. Vou falar do meu tempo, e esse tempo que eu estou na EPA eu já passei por alguns lugares da EPA, que me deram mais prazer, e outros onde eu tive mais sofrimento [...]

Todos os relatos referem que não há como não sofrer com as situações de vida dos adolescentes. A mobilização psíquica que causam as situações relatadas e vividas pelos alunos é fator importante no sofrimento dos educadores.

É meio impossível deixar de sofrer com o sofrimento deles. O dia que eu deixar de sofrer com o sofrimento deles, eu não consigo mais trabalhar aqui dentro.

Um dos pontos que esteve presente, em grande parte das discussões do grupo, foi a relação com os colegas de trabalho. Apesar da mobilização, pela situação dos adolescentes, os educadores acreditam que grande parte dos problemas da escola são referentes à relação entre os adultos.

Os educadores discutiram como é possível querer que os alunos se entendam e tenham respeito com os demais, se os trabalhadores não conseguem dar o exemplo. Aparentemente, as questões de conflitos, entre os adultos, se expressam mais entre os educadores, os que estão nas atividades mais diretas com os estudantes, principalmente da sala de aula.

É importante que se tenha confiança no trabalho do colega e que as atividades sejam realizadas conforme o planejado, mas isso nem sempre acontece, porque as pessoas não confiam nos encaminhamentos dados e nem respeitam os espaços de decisão.

Conforme afirma Dejours (2004, p. 68), a confiança diz respeito a “[...] construção de acordos, normas e regras que enquadram a maneira como se organiza o trabalho.” Para que haja cooperação, é necessária confiança entre os colegas, nos subordinados e nas chefias. Ainda afirma que “[...] sem cooperação, a situação seria equivalente ao que se observa em uma operação padrão; em outros termos, corresponde a um ato de bloqueio da produção.” (DEJOURS, 2004, p. 67)

Apesar das situações relatadas de sofrimento, os educadores conseguem associar situações prazerosas no trabalho com a execução de atividades bem sucedidas.

E hoje a gente consegue realizar trabalhos bem bacanas, bem legais, e há alguns depoimentos, assim, que realmente acabam me realizando um pouco como educador.

Mesmo com o sofrimento individual, saber que outros integrantes do grupo compartilham dos mesmos sentimentos é algo reconfortante. Ter a dimensão que o sofrimento individual pode ser compartilhado com o coletivo faz com que o trabalhador não se sinta só e possa compartilhar aquilo que é comum ao trabalho, e nem sinta que esta é uma vivência apenas individual. (DEJOURS, 2004)

Os educadores sentem a falta de reconhecimento, por parte de alguns colegas e da instituição. Ao mesmo tempo, relatam que outros serviços da prefeitura e sociedade em geral não conhecem e, portanto, não reconhecem seu trabalho. Segundo Dejours (2004, p 77), é possível a transformação do sofrimento em prazer, a partir do reconhecimento. Mas, se “[...] falta reconhecimento, os indivíduos engajam-se em estratégias defensivas para evitar a doença mental, com sérias consequências para a organização do trabalho, que corre o risco de paralisia.”

É a coisa de ser valorizado, no lugar que tu tá ocupando, tanto pelo produto que aparece ali porque é espontâneo, quanto do reconhecimento dos que tão perto de dizer: “que bacana”, que não é só nos dedos. Daí é uma situação muito ruim.

Os educadores relatam que a sociedade e outras escolas têm uma visão distorcida sobre o trabalho realizado. São vistos como anjos, santos, ou, ainda, interessados em “trabalho fácil”, por terem poucos estudantes, ou por estarem no centro da cidade, com outras facilidades.

Interessante observar que esta visão ambivalente, muitas vezes, é dirigida às pessoas em situação de rua (FERREIRA; MATOS, 2004; LEMOS, 2002, 2004; LEITE, 2001). Os educadores ressaltaram, também, a imagem de vagabundo, de quem “mata o serviço”, atribuída aos profissionais, assim como a ideia de ineficiência, relacionada ao serviço público.

Eu não consigo ter mais esta relação de diálogo com as escolas regulares, porque eles colocam a gente no patamar de anjo, santo, Madre Tereza. E não, a gente tenta ser profissional, ninguém é anjo, etc.

Tem dois conceitos, entre loucos, anjos e vagabundos.

Tu és rechaçada, eu me senti muito isolada, ou era louca.

Os educadores relatam a criação de mecanismos, para enfrentarem o cotidiano do trabalho, muitas vezes até brincando com as situações. A banalização, amortecimento e anestesia são estratégias citadas, como formas de evitar o sofrimento vivido junto aos adolescentes, ou como forma de suportar as situações a que são expostos os adolescentes. Ao mesmo tempo, estas estratégias são colocadas como pejorativas, quando relacionadas a outros educadores que não participaram do grupo. Mas também aparece uma forma de mobilização positiva, que não causaria anestesia ou paralisia, mas, sim, enfrentamento das situações.


Quando os integrantes do grupo foram convidados a falar sobre a experiência de participação na pesquisa, integrando o grupo e as possíveis repercussões desta participação, em relação ao seu trabalho, suas falas remeteram à possibilidade de reflexão sobre o seu fazer cotidiano e de construírem, coletivamente, novas possibilidades para o enfrentamento de conflitos no âmbito da escola. Também foi utilizado o termo de “espaço de verdade”, expresso no último comentário, para os encontros do grupo, como um momento para se conhecerem melhor e saber com quem é possível contar. Ao mesmo tempo, os educadores apresentaram a preocupação pelo fato de o período da pesquisa não ser suficiente para o aprofundamento de algumas questões, apresentadas no grupo.

Também relataram terem refletido sobre novas possibilidades para o trabalho, tanto da ordem individual quanto coletiva, a partir dos encontros do grupo, e de terem levado propostas, que surgiram a partir das discussões para as reuniões em outros espaços.


CONSIDERAÇÕES

A Metodologia que propõe a formação de coletivos de discussão, ou sua reorganização no espaço de trabalho, visa a reconstruir, através do grupo, o engajamento do trabalhador, na busca de reformular a organização do trabalho, com movimentos de tessitura da confiança e cooperação. Vale dizer que esse movimento segue na contramão do que tem se constituído, atualmente, em nossa sociedade, em relação ao individualismo exacerbado e à competição, cada vez mais valorizada.

Acredito que fazendo uso de uma abordagem qualitativa, que pressupõe a participação dos envolvidos, em todos os momentos do processo da pesquisa, pode contribuir na discussão de novas possibilidades, para pensarmos melhorias nas condições de trabalho e saúde para os trabalhadores. É o que se evidencia, pois essa perspectiva trata de questões relativas à subjetividade, ao trabalho, suas relações com a saúde e à vida dos sujeitos, bem como sua implicação política e social. É importante salientar que a pesquisa feita em um determinado momento, diz respeito, a um período no tempo. Portanto, situações aqui apresentadas já devem ter sofrido modificações.



Nota:

1 Pesquisa realizada durante o Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PPGPSI/UFRGS, defendida no ano de 2009 (BOTTEGA, 2009). Este texto é uma compilação do artigo e capítulo originais publicados pela autora, citados nas referências.

2 Aqui a referência ao fazer do trabalhador, remete à expressão savoir-faire como é utilizada por Dejours. (1992, 2004)



Referências:

BOTTEGA, C. G.; MERLO, A.R.C. . Prazer e sofrimento no trabalho dos educadores sociais com adolescentes em situação de rua. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho (USP), v. 13, p. 259-275, 2010

DEJOURS, Christophe. In: LANCMAN, S.; SZNELWAR, L.I. Christophe Dejours - Da Psicopatologia à Psicodinâmica do Trabalho. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, Brasília: Paralelo, 2004

____. Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, São Paulo, v. 14, n. 3, p. 27-34, set./dez. 2004b

____.Conferências Brasileiras: Identidade, Reconhecimento e Transgressão no Trabalho. São Paulo: Fundap, 1999

____. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez-Oboré, 1992

FERREIRA, Ricardo F.; MATTOS, Ricardo M. Quem vocês pensam que (elas) são? Representações sobre as pessoas em situação de rua. Psicologia e Sociedade, Porto Alegre, v. 16, n. 2, p. 47-58, mai./ago., 2004

FREIRE, Paulo. Paulo Freire e educadores de rua: uma abordagem crítica. Projeto Alternativas de Atendimento a Meninos de Rua UNICEF/SAS/FUNABEM. Rio de Janeiro: Editora Lidador,1985

____.Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Coleção Leitura)

LEITE, Lígia C. Meninos de rua: a infância excluída no Brasil. Coord. Wanderley Loconte. São Paulo: Atual, 2001. (Espaço e Debate)

LEMOS, Míriam P. et. al. Relatório de sistematização de conceitos. Programa Municipal de Atenção Integral a Crianças e Adolescentes em Situação de Rua, PAICA-Rua. Prefeitura Municipal de Porto Alegre, dezembro de 2004

____. Ritos de entrada e ritos de saída da cultura de rua: trajetórias de jovens moradores de rua de Porto Alegre. 2002. Dissertação [Mestrado em Educação]. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2002


Fonte: (EN)CENA

sexta-feira, 6 de junho de 2014

"TU TRABALHA TAMBÉM OU SÓ DÁ AULA?"

UMA REFLEXÃO DO TRABALHO DE DOCENTES UNIVERSITÁRIOS


Esta escrita se refere a uma reflexão sobre as considerações desenvolvidas a partir da dissertação de mestrado intitulada “‘Se eu tirar o trabalho, sobra um cantinho que a gente foi deixando ali’: Clínica da Psicodinâmica do Trabalho na atividade de docentes no ensino superior privado”.

O estudo desenvolvido teve como foco principal a compreensão das vivências de prazer e sofrimento no contexto de trabalho das Instituições de Ensino Superior (IES) privadas, centrando especialmente no modo como esta relação produz impactos na saúde mental destes trabalhadores.

Com este trabalho pretendeu-se problematizar a experiência do trabalhador docente que, mesmo com uma formação qualificada (mestrado e doutorado) e contínua, não escapa dos reflexos produzidos pelas transformações no mundo e nas relações de trabalho, o que acarreta, inevitavelmente, consequências para a saúde mental. Assim, por meio deste levantamento sobre as repercussões que esta modalidade de trabalho produz na vida e, mais especificamente na saúde destes indivíduos, também foi possível evidenciar as estratégias que, de alguma forma, preservam a saúde mental destes trabalhadores, impedindo assim o adoecimento mental.

A constante exigência por produtividade ligada a um contexto de trabalho mentalmente insalubre favorecem o desenvolvimento de sentimentos de sofrimento no trabalhador. Entretanto, de alguma forma este mesmo sujeito, muitas vezes, parece encontrar estratégias para defender-se de tal situação, enquanto em outras situações começa a questionar-se, analisando o cenário laboral no qual está inserido e assim, passa a buscar novas fontes de prazer no trabalho.


CONTEXTUALIZAÇÃO

A educação superior no Brasil tem representado um importante fator para o atual contexto econômico e social, de modo que a pesquisa e a inovação representam fatores que agregam valor à economia baseada no conhecimento. No País, a formação superior tem sido realizada em grande escala nas Instituições Privadas (FERNANDES; GRILLO, 2001).

A expansão de instituições de ensino superior vem acontecendo em grande escala no Brasil, tem trazido, como consequência, uma sobrecarga de trabalho para àqueles que nelas atuam,o que tem repercutido tanto na saúde física e quanto mental deste trabalhadores.

O trabalho relativo à docência superior, exige múltiplos saberes e competências tanto pedagógicas como científicas relativas a especialidade de cada professor. Ademais requer características como polivalência, flexibilidade e criatividade para lidar com as exigências e peculiaridades da profissão que envolvem desde situações de conflito até mesmo as relações de competitividade na academia (PIMENTA e ANASTASIOU, 2005).


Teoricamente, este estudo foi fundamentado na Psicodinâmica do Trabalho (DEJOURS, 2004a; MENDES 2007) e nas Clínicas do Trabalho (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2010), o que inclui a Clínica da Psicodinâmica do Trabalho (MENDES e ARAÚJO, 2011).

A Psicodinâmica do Trabalho é essencialmente uma disciplina clínica que tem como princípio o conhecimento e descrição das relações entre saúde mental e o trabalho. É também uma campo teórico que visa registrar os resultados desta investigação clínica da relação dos sujeitos com o trabalho (DEJOURS, 2004b).

Configura-se como objeto de análise das clínicas do trabalho a dimensão sociopsíquica do trabalho. Por isso, parte-se da análise da organização do trabalho no sentido de investigar e compreender de que forma desenvolve-se a produção de subjetividade e os processos de saúde-adoecimento.

O meio para desenvolver esta análise é a observação das estratégias de ação utilizadas pelos sujeitos para confrontar a organização do trabalho. Esta é considerada responsável pela forma como essas estratégias são constituídas, à medida que proporciona ou não espaço para a expressão do sofrimento, para a cooperação e reconhecimento, promovendo a saúde e/ou favorecendo o desenvolvimento de patologias (MENDES, 2007).

A expressão Clínica da Psicodinâmica do Trabalho remete a uma identidade que busca correlacionar a ação na clínica, pois se procura articular a ação a partir da emissão da fala. Neste sentido a fala assume uma eficiência quando é processada nos termos de elaboração-perlaboração, possibilitando a transformação por meio da passagem do espaço de discussão para a ação (MENDES; ARAÚJO, 2011).

A partir deste processo mediado pelo falar, escutar e as trocas produzidas ocorre a perlaboração daquilo que se experiência no trabalho. Isto diz respeito a uma elaboração com maior profundidade, de caráter reflexivo, o que provoca uma modificação na relação subjetiva dos trabalhadores com sua própria atividade. (BENDASSOLLI, SOBOLL, 2010).


METODOLOGIA

A metodologia se baseou nos pressupostos teóricos e práticos da Psicodinâmica do Trabalho (PdT). Embora nesta investigação não foi possível desenvolver a metodologia strictu sensu em PdT em função das limitações do campo de pesquisa. Conforme Dejours (2004a), a intervenção em Psicodinâmica do Trabalho representa uma operação mais analítica e metódica do que usualmente ocorre nos espaços de trabalho.

Os participantes da pesquisa foram18 professores universitários de cursos de graduação ou pós-graduação que trabalham em instituições de ensino superior privado (Universidade, Centros Universitários e Faculdades) do Estado do Rio Grande do Sul.  A amostra caracterizou-se por dez participantes do gênero feminino e oito do gênero masculino. Os referidos participantes possuíam, na fase da pesquisa de campo, idades entre 27 a 48 anos, obtendo-se uma média de 35,2 anos.  A titulação destes professores também variou entre especialistas, mestres e doutores. O tempo de atuação como docente universitário variou de 3 meses a 16 anos, alcançando uma média de 5,5 anos. A carga horária semanal teve uma variação de entre 4 horas e 40 horas, sendo que a média ficou em 26,2 horas de trabalho semanais.


ANÁLISE E DISCUSSÃO

Os comentários verbais emitidos pelos trabalhadores foram organizados em três eixos temáticos sendo eles: Organização do Trabalho, Atividade Docente: Ser Professor Universitário e Estratégias de Saúde. Após esta organização os eixos-temáticos foram sub-divididos em sub-eixos temáticos para facilitar a compressão da análise das informações levantadas.

O primeiro eixo, chamado “Organização do Trabalho” buscou relacionar as questões próprias da organização, execução e supervisionamento do trabalho nas universidades. Dejours (2004a; 2004b, 2000), apresenta a ideia que as novas formas de organizar o trabalho expõe um modo de dominação social requintado, muitas vezes difícil de ser percebidos pelos atores que a compõe. Isso diz respeito as contradições nas regras, objetivos e meios de controle, em que as exigências mesmo presentes e percebidas pelos trabalhadores passar a ser inviabilizadas. Sendo assim representam uma ameaça tanto no contexto individual quanto coletivo, provocando a sensação de instabilidade, medo e desestabilização dos grupos de trabalho.

As questões mais relevantes que dizem respeito a organização do trabalho na educação superior privada envolvem temas como a mercantilização do conhecimento, as formas de gestão e direcionamentos, os tempos e ritmos, o controle dentre outros assuntos. Outro aspecto relevante é a (não) possibilidade de haver um espaço para discussões sobre as questões que envolvem o trabalho na educação superior.


Um tema que merece destaque é o cotidiano de trabalho dos docentes que tem ocasionado sobrecarga de trabalho e, a partir disso, influências na saúde psíquica e física dos professores. A falta de tempo e o desejo de ter “mais tempo”, não só livre, mas mesmo para se dedicar ao trabalho é uma constante no trabalho docente. Essa sensação é incutida pela reestruturação do trabalho que faz com que muitas vezes os trabalhadores sintam-se culpados por pensarem que não estão se doando o suficiente, o que faz parecer que “sempre acha que tá devendo tempo”. Isso acontece porque a carga de trabalho é tão grande que dificilmente se consegue dar conta no horário de trabalho prescrito pelas IES.

[...] acho que o mundo do trabalho hoje é muito cruel, em relação ao tempo por isso, porque a gente sempre acha que tá devendo tempo, quando não, quando a gente deveria ter mais tempo livre [...]

A questão da Instabilidade da carga horária e a insegurança provocada por este contexto de trabalho, em que não se sabe quantas disciplinas irá ministrar no próximo semestre, exige uma reorganização constante por parte dos docentes. O que mostram os relatos é o fato de que suas vidas se alteram de semestre para semestre, pois não há “garantia de nada aqui dentro”, sendo que“qualquer um pode ser o próximo a tá fora daqui”

[...] a gente se decepcionou muito com a instituição, [...] a gente não tem garantia de nada aqui dentro, a gente pode ser demitido [...]

Pesquisas recentes indicam que as condições de trabalho dos professores estão em um processo crescente de precarização e desvalorização. Tal fato é percebido especialmente pelos baixos salários, múltiplos empregos, postura corporal inadequada, exposição a ruídos, infraestrutura precária e carência de recursos materiais e humanos que intensificam a sobrecarga de trabalho dos professores (SOUZA et al, 2003).

[...] essas cadeiras que tu estás vendo aqui aonde os alunos são atendidos, são péssimas [...].

[...]nunca tem disponível um guichê pra ti orientar ali, então o local de orientar é na praça de alimentação que é na rua, que é aberta, então no inverno é desumano [...].

O cotidiano de trabalho dos professores universitários é caracterizado pelo excesso de atividade e que na maior parte do tempo dizem respeito a atividades ligadas ao ensino. A pesquisa não é uma atividade que recebe incentivo por parte das IES privadas, sendo que quando existem há muitos critérios e um processo burocrático para o desenvolvimento desta atividade o que faz com que, em alguns casos, os professores desenvolvam a pesquisa de forma voluntária. Apesar das adversidades encontradas neste âmbito do trabalho há um desejo muito grande de se trabalhar neste campo já que se acredita que, além do ensino, a pesquisa é fundamental para uma formação de qualidade.

[...] isso já nos foi dito em reunião, que a instituição ali, ela incentiva em ensino... fundamental é o ensino, [...] não precisa pesquisa, extensão [...].

[...]é uma coisa de trabalhar só dando aula, aula, aula, não se entende que existem coisas pra além de uma sala de aula [...].

[...]não vão se iludir, que se tu fizer o doutorado tu vai voltar pra cá e vai ter um incentivo, que vai ter um grupo de pesquisa, porque a faculdade não é isso [...] então tem, pra mim é bem paradoxal assim, tem um discurso que é feito, mas na real não se cumpre [...].

No eixo Atividade docente: Ser Professor Universitário são referenciados os temas ligados a atividade do professor universitário, que relaciona a importância que o trabalho docente tem na vida destes trabalhadores, apresentando as características do trabalho em si, incluindo os desafios, as adversidades e realizações, representando também a dinâmica de prazer e sofrimento na atividade docente.

[...] então, assim, eu acho que é isso que é interessante da profissão né, embora seja uma profissão eu acho que extremamente, eu acho que é gratificante e é estressante ao mesmo tempo [...].

Entendido como produção da vida, o trabalho ocupa um lugar fundamental na especificidade humana, elementar na realização social dos sujeitos. É mediante o trabalho que se desenvolve a humanização dos atores sociais e para a própria condição de existência (ANTUNES, 1995).

Ah eu adoro, eu adoro... é por isso que 8 horas da manhã eu to aqui, além das atividades oficiais eu faço as não oficiais. Porque eu gosto muito, assim, acho, eu acho muito bom, assim é... a sensação de enfim, de estar numa sala de aula, de repassar conhecimento, de, ahm, enfim trabalhar com os alunos [...]

O terceiro eixo se dedicou a discutir as estratégias de saúde, que tem como intuito preservar a saúde mental dos trabalhadores.Podem ser coletivas ou individuais e são elaboradas como uma tentativa de proteger a saúde mental de elevados níveis de sofrimento e adoecimento (Dejours, 2004a).

As estratégias de defesa foram organizadas em dois sub-eixos: estratégias defensivas conservadoras da organização do trabalho e estratégias defensivas de permanência do sujeito no trabalho. As primeiras se referem às estratégias que não modificam a organização do trabalho, mas que podem abalaro desejo e a motivação de dar continuidade a carreira docente.

[...] eu tento não manifestar muito meu descontentamento para pessoas quem não interessa isso, até porque não vai adiantar, mas eu tento fazer um bom trabalho com os meus alunos, respeito meus colegas enfim [...].

[...] bom a instituição está de portas abertas, se quiser sair né, fique a vontade, que é o movimento que muita gente faz né [...].

As segundas, mesmo não provocando alterações na organização do trabalho, são estratégias que permitem aos docentes vislumbrarem um trabalho possível e com saúde nas universidades, representando um fator de manutenção da atividade no campo acadêmico.

[...] mas que eu acho que a gente cria estratégias pra sobreviver...

[...] e todos que eu to conversando assim, dizem “Eu tô cansado, eu não tô bem”, mas vamos lá, assim contagem regressiva tá acabando... [...]

As entrevistas foram percebidas por alguns entrevistados como um espaço para a reflexão sobre si e sobre suas práticas como docentes universitários. Foi possível perceber, em alguns casos no próprio momento da entrevista e em outros após as entrevistas, por meio da verbalização dos participantes, que este “poro reflexivo” na jornada de trabalho, que praticamente nunca se encerra, impulsionou alguns movimentos de mudanças, mesmo que em nível micro-social.

[...] aí eu fico falando contigo e vou me dando conta né [risos], vou me dando conta disso né, eu não tenho, é o trabalho, o trabalho eu diria que é 80% da minha vida hoje, se eu pudesse fazer uma pizza, aqui é o... o resto é trabalho, trabalha, é coisas do trabalho, né, que remetem ao trabalho...

Para Dejours (2004a), poder falar com outra pessoa, compartilhar seu mundo, é a maneira mais potente de repensar o vivido.É por meio da palavra que se acessa a realidade vivenciada pelo trabalhador, por isso é pela palavra que se chega a perlaboração que permite refletir sobre as experiências vividas.


CONSIDERAÇÕES

Esta pesquisa se propôs discutir as vicissitudes do trabalho no contexto acadêmico com ênfase na atividade do professor universitário. Os resultados indicam que o trabalhador docente de IES privadas apresentam uma jornada extensiva de trabalho que com frequência invade a vida fora do trabalho, evidenciando a sobrecarga de atividades que lhes é solicitada cotidianamente.  Mesmo assim, sabe-se que estas circunstâncias de trabalho não tem recebido a devida atenção no sentido de promover a elaboração de políticas públicas que visem a saúde e o bem-estar em relação ao trabalho docente.

Ser mal-remunerado, ter uma jornada de trabalho extensa, onde não há tempo disponível para preparação e correções de atividades, e também não há tempo reservado para se dedicar a uma qualificação ou até mesmo cursos de atualizações, somadas as escassas oportunidades para a troca coletiva, são fatores que comprometem a qualidade do ensino e, principalmente, a saúde dos docentes.

Tais elementos se referem à conquista de um espaço onde seja permitido discutir as questões do trabalho, um lugar de fala e escuta possibilitada pela troca de experiências. Outro aspecto, diz respeito à obrigatoriedade da distribuição na jornada de trabalho dos professores, de um tempo compatível com o tempo de preparação de aulas e atividades acadêmicas. Uma menor carga horária direcionada ao trabalho em sala de aula, também foi um importante fator evidenciado, sendo que uma parte da carga horária semanal remunerada deve ser destinada ao desenvolvimento de atividades ligadas a extensão e, especialmente, à pesquisa e a um período destinado a qualificação.

Com a finalização desta pesquisa fica o desejo de que o trabalho docente seja valorizado e reconhecido, tanto pelas instituições nas quais trabalham os professores universitários, como na esfera social pelos diferentes atores que a compõe.

Para Dejours (2004a), o sofrimento também pode ser considerado um ponto de partida, pois é a partir dele que a mobilização pela transformação pode acontecer. A potência da pesquisa em clínica do trabalho está no fato de que mesmo quando não se pode trabalhar em nível macro, promovendo alterações altamente significativas, deve-se atuar de forma múltipla no nível micro, acreditando mesmo na pequena mudança e movimentação (movimento para a ação) e dessa forma, nas transformações na vida dos trabalhadores.

Para que esta prática que vise à transformação se efetive é necessário transcender o espaço físico das IES e levar esta discussão sobre o sofrimento no trabalho docente para outras esferas. Isso tem o principal intuito de tornar este problema público e, assim, construir estratégias que implementem, de forma eficaz, políticas que viabilizem a saúde dos professores universitários.



REFERÊNCIAS:

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao Trabalho? Ensaios sobre as Metamorfoses e a Centralidade do mundo do trabalho. Campinas, SP: Cortez, 1995.

Bendassolli, Pedro; Soboll, Lis. Andrea. P. Introdução às Clínicas do Trabalho: aportes teóricos, pressupostos e aplicações. In:Bendassolli, Pedro; Soboll, Lis. Andrea. P. (Orgs.). Clínicas do Trabalho: Novas perspectivas para a compreensão do trabalho na atualidade. São Paulo: Atlas, 2010.

DEJOURS. Christophe. A Banalização da Injustiça Social. Rio de Janeiro, RJ: FGV, 2000.

DEJOURS. Christophe. In: LANCMAN, Selma; SZNELWAR, LaerteIdal (Org). Christophe Dejours -  Da Psicopatologia à Psicodinâmica do Trabalho.Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, Brasília: Paralelo, 2004a.

DEJOURS. Christophe. Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção,  São Paulo,  v. 14,  n. 3, dez.  2004b.   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script= sci_arttext&pid=S010365132004000300004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em:  jan.  2012. 

FERNANDES, Cleoni; GRILLO, Marlene. Educação Superior: travessias e atravessamentos. Canoas. Editora da ULBRA. 2001.

PEREZ, Karine Vanessa. Se eu tirar o trabalho, sobra um cantinho que a gente foi deixando ali: Clínica da Psicodinâmica do Trabalho na Atividade de Docentes no Ensino Superior Privado. Porto Alegre: UFRGS, 2012. 246 p. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social e Institucional) – Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2012.

MENDES, Ana Magnólia. Teoria. In: MENDES, Ana Magnólia. Psicodinâmica do trabalho: teoria, método e pesquisa. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.

MENDES, Ana Magnólia; ARAÚJO, Luciane Kozicz Reis. Clínica Psicodinâmica do Trabalho. 1. Ed. Brasília: Ex-Libris, 2011. 

PIMENTA, Selma Garrido; ANASTASIOU, Léa das Graças Camargos. Docência no ensino superior. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2005.

SOUZA, Kátia Reis et al. A trajetória do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro (Sepe – RJ) na luta pela saúde no trabalho. Ciência & Saúde Coletiva 2003: 8(4): 1057-68.



Nota: Pesquisa desenvolvida no Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PPGPSI/UFRGS, defendida em março de 2012 (PEREZ, 2012).


Fonte: (EN) CENA

quinta-feira, 27 de junho de 2013

CFP LANÇA CAMPANHA #VETADILMA CONTRA O ATO MÉDICO

Na calada da noite de terça-feira (18/6), o Senado Federal antecipou a ordem do dia e aplicou um duro golpe nos profissionais de saúde com a aprovação do Projeto de Lei (PL) nº 268/2002, que dispõe sobre o exercício da Medicina, conhecido como Ato Médico. O PL foi colocado na pauta pelo presidente da Casa, Renan Calheiros, e pelo senador Romero Jucá, fruto de mais um acordo fechado com apoio da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann.
O orgulho da classe médica ao comemorar a aprovação do PL dentro do Plenário do Senado fere não somente a Psicologia, mas todo o paradigma de saúde que o Brasil conquistou na construção do Sistema Único de Saúde (SUS), fortalecendo a ideia de que a saúde é uma construção multiprofissional, que envolve várias atividades.
O Conselho Federal de Psicologia (CFP) se manifesta, de maneira ainda mais incisiva, por meio da campanha lançada hoje, para que a presidente Dilma Rousseff vete o artigo que atribui ao médico a função do diagnóstico nosológico e da prescrição terapêutica, áreas nas quais não possui habilitação. A autarquia vai dispor de toda sua capacidade de articulação com o governo, entidades ligadas ao tema e sociedade civil para que esse projeto não siga adiante: O Ato Médico Ata-Nos #VetaDilma VETA!
Desde o início de sua tramitação, o CFP e diversas categorias da saúde pública no Brasil se mobilizaram pela não aprovação da matéria, que interfere no exercício de outras profissões da saúde. As ações mais recentes incluem um pedido, realizado em 13 de junho pelo Fórum dos Conselhos das Profissões da Área da Saúde (FCPAS), em reunião com o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, sobre a reforma do artigo 4º – o qual estabelece que as competências privativas da atividade médica sejam limitadas à sua área de atuação, a fim de evitar a insegurança jurídica para as demais atividades de saúde.
É importante frisar que não há posicionamento contrário à regulamentação da Medicina. Os médicos podem e devem trabalhar para que a sociedade reconheça as competências específicas destes profissionais. No entanto, isto não pode ser feito em detrimento de qualquer outra profissão na área da saúde.
O PL pretende tornar privativo da classe médica todos os procedimentos de diagnóstico sobre doenças, indicação de tratamento e a realização de procedimentos invasivos e, ainda, a possibilidade de atestar as condições de saúde, desconsiderando a trajetória das demais profissões que constituem o cenário da saúde pública na ótica do SUS.
Igualmente, torna privativa do médico a chefia de serviços, indicando uma hierarquização que não corresponde aos princípios do trabalho multiprofissional que precisa ser construído na saúde. O PL coloca em evidência o interesse corporativista por reserva de mercado. Haja vista que teve origem na Resolução do Conselho Federal de Medicina nº 1.627/2001, cujo texto elucida o tema.
O Ato Médico, além de prejudicar a autonomia de cada profissão, impede a organização de especialidades multiprofissionais em saúde. Milhões de usuários sabem os benefícios do SUS e reconhecem o valor de todos os profissionais no cotidiano das unidades de saúde. Hoje, uma série de políticas públicas de saúde, como Saúde Mental, Atenção Básica e outras oferecidas à população, contam com profissionais de várias áreas trabalhando de forma integrada e articulada. As equipes multidisciplinares definem em conjunto o diagnóstico e o tratamento, somando suas diversas visões de saúde e de doença para chegar à melhor intervenção. Os usuários não podem ser penalizados desta forma, perdendo esta possibilidade.
Desde que o Projeto de Lei do Ato Médico foi apresentado pela primeira vez no Senado Federal, em 2002, o CFP luta e se mobiliza para que o dispositivo não seja aprovado da forma como está, uma vez que restringe a atuação dos outros profissionais da área e cria uma hierarquização em detrimento da multidisciplinaridade consagrada pelo SUS.
Ao longo deste período, em conjunto com os Conselhos Regionais e outros conselhos da saúde, participou de inúmeras manifestações. Esse cenário constitui uma atuação histórica, destacada na defesa de temas de interesse coletivo e não corporativistas na área da saúde, como é o caso do PL do Ato Médico.
O CFP sempre esteve à frente das manifestações contra a aprovação desse Projeto de Lei, e permanecerá. Já reuniu milhares de pessoas em atos realizados, em conjunto com outras profissões da saúde, em diversas cidades e capitais brasileiras, promovidos constantemente desde 2004. As entidades da Psicologia continuarão em vigília e mobilizado os diversos atores para que o PL do Ato Médico seja vetado pela líder do Poder Executivo.
Vamos apelar para que a sanção da presidente Dilma Rousseff priorize o consenso das profissões da área da saúde, garantindo a regulamentação da medicina, a autonomia das demais profissões de saúde e, principalmente, a existência do SUS.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA
O Ato Médico não pode ser aprovado! Envie mensagem aos parlamentares e a presidenta solicitando #VetaDilma : http://www2.pol.org.br/main/manifesto_veta_dilma.cfm

quarta-feira, 26 de junho de 2013

POR QUE HÁ CONFRONTOS EM MANIFESTAÇÕES PACÍFICAS?


Manifestação grega.
Além dos números superlativos de pessoas que atraíram para as ruas, as passeatas e protestos que desde a semana passada tomam cidades de todo o Brasil ficaram marcadas por cenas de violência, seja pela forte repressão policial ou por atos de vandalismo cometidos por grupos isolados entre manifestantes que eram, em sua maioria, pacíficos.
Episódios como o dos feridos deixados pela forte repressão da polícia que marcou a manifestação em São Paulo no dia 13 de junho ou as cenas de guerra registradas nos confrontos em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro na última segunda-feira chocaram parte da população e foram destaque na imprensa brasileira e estrangeira.
Especialistas em psicologia, filosofia e ciência política ouvidos pela BBC Brasil afirmam que episódios de vandalismo em eventos de grandes proporções são previsíveis, mas que, no lugar de tomar medidas para prevenir a violência, polícia e outras autoridades acabaram por adotar condutas que abriram o caminho para a existência de mais confrontos

Oportunismo
“Eventos de massa, seja a entrada e saída de estádios, grandes shows, o Réveillon no Rio, uma grande passeata ou um bloco (de carnaval) são oportunidades para ações oportunistas de predação, vandalismo, de roubo”, afirma a antropóloga e cientista política Jacqueline de Oliveira Muniz, professora do IUPERJ, da Universidade Cândido Mendes.
“Passeatas e manifestações coletivas produzem um alto grau de visibilidade política e social, razão pela qual ações vândalas e predatórias oportunistas podem se dar”, diz.
Na avaliação da professora, a previsibilidade de ações desse tipo em eventos que reúnem uma grande quantidade de pessoas deveria ter feito com que não apenas a Polícia Militar, mas outras estruturas de segurança, como policiais civis, bombeiros e ambulâncias, fossem mobilizados para acompanhar as manifestações, assim como acontece no Carnaval e no Réveillon do Rio, por exemplo.
“Essa é a razão pela qual é necessário o aparato de segurança pública, para garantir e preservar o direito de ir e vir e o direito de se manifestar de forma pacífica e, ao mesmo tempo, reduzir a oportunidades de riscos, de acidentes, de incidentes, e mesmo de ações predatórias localizadas”, diz.
A professora ainda critica o modo como parte das autoridades e da mídia trataram as manifestações no início.
“Na verdade quem inaugura a ação violenta são os próprios governos, através das orientações que deram a suas polícias (…) em um primeiro momento (a atitude) foi de criminalização das manifestações populares e espontâneas. As falas eram no sentindo de que se tratava de uma grande baderna, e a sociedade respondeu indo às ruas cada vez mais, repudiando essa leitura”, diz.

Violência
Claudio Oliveira, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF), cita as ideias do pioneiro da psicanálise, Sigmund Freud, para explicar o comportamento das pessoas durante eventos em que comparecem grandes massas, como as manifestações.
Segundo ele, em situações de massas, os indivíduos acabam por tomar atitudes que não teriam se estivessem sozinhos ou em pequenos grupos.
“Há uma espécie de diminuição da pressão das inibições que constituem a vida social. O indivíduo em uma massa pode assumir um comportamento violento, ele pode assumir um comportamento que ele não teria em condições normais. Esta teoria vale tanto para o comportamento da polícia quanto para o comportamento de alguns grupos que integram a grande massa dos manifestantes”, diz.
O filósofo, no entanto, afirma que questões sociais podem fazer com que determinadas pessoas acabem por encontrar nas atitudes violentas um recurso para expressar sua insatisfação.
“No caso atual, esses fenômenos de violência ocorrem em geral isolados. A maioria dos manifestantes tem uma atitude muito pacífica, inclusive gritam palavras de ordem pacifistas. Apesar disso, parece que há alguns que buscam se manifestar a partir dessa violência. A gente precisa saber o que esses jovens pensam da própria violência que eles assumem nessas manifestações”.
Para Oliveira, no caso das recentes manifestações que tomam as cidades brasileiras, no entanto, estão em jogo também outros aspectos. Em sua avaliação, a violência com que a polícia reprimiu as primeiras manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus serviu como uma espécie de catalisador para que outras pessoas se juntassem ao movimento, expressando outras insatisfações.
“As manifestações começaram com um objetivo muito específico, mas se tornaram manifestações onde as pessoas iam para protestar contra uma quantidade enorme de coisas, com as quais a população brasileira não está satisfeita”, diz.

Direitos
Marco Aurélio Máximo Prado, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que parte dos episódios de violência nas manifestações recentes podem também ter relação com o despreparo de polícia e outras autoridades para lidar com o modo como foram organizadas.
“Obviamente que há um despreparo da polícia para lidar com essa forma de protesto. São protestos que não tem características organizativas clássicas, então não têm liderança específica”, diz Prado, para quem a forma espontânea como foram organizados também faz com que alguns manifestantes isolados acabem por tomar atitudes violentas.
Para ele, a grande adesão e a pluralidade de bandeiras presentes nos protestos refletem uma insatisfação maior da população, com questões que passam, entre outras coisas, pelo modo como os grandes eventos como a Copa do Mundo estão sendo organizados no Brasil.
“As cidades que são sedes da Copa (das Confederações) estão vivendo uma certa suspensão dos direitos, do direito de protesto, que é um direito básico da democracia, e do direito de ir e vir”.
“Há uma certa suspensão de direitos conquistados que está gerando uma faísca importante. Agora eu considero que esses atos políticos não são atos de negociações, são atos de rebeldia civil. São um sintoma de que a constitucionalidade não está funcionando, são um corretivo de um norma que não está funcionando, que está falha”, diz.


Fonte: BBC Brasil

terça-feira, 25 de junho de 2013

VEM PRA RUA, PORQUE A RUA É A MAIOR ARQUIBANCADA DO BRASIL

Por Leonardo Cappi Manzini


Dia do Basta/Vem Pra Rua - Vilhena/RO
Foto: Herbert Weil
O Brasil que você nunca viu. Talvez já tivesse ouvido falar, mas não acreditava mais, se era verdade ou mais um exemplo de politicagem, coisa da política, no pior conceito que esta poderia ocupar.


Muitos se perguntam ainda se não passa de uma moda entre jovens das capitais, um efeito mesmo da industria cultural global, um efeito rebote, um efeito chicote, que arrebata o poder no seu completo anonimato, isto é, o alvo são as diversas formas de poder, sejam eles quais forem, seja eles o que fazem ou para quem torcem. Vale tudo, a insurreição explode sobre qualquer monumento ou patrimônio do poder, lojas, vitrines, vidraças, prédios históricos, cabines telefônicas, carros de agencias de comunicação de massa, cabines da PM, automóveis. A fúria que emerge das heterotopias das ruas revoltas, vê em cada um desses objetos, a projeção do poder que expropria, exclui, explora, cobra, financia, esconde. Não há consciência na fúria, ela recorre e emerge de um imaginário radical de outra ordem, irrompe de seu estado encoberto e controlado, pela soma e sobre-repressão (Marcuse, 1978) do aviltamento acometido pelo próprio exercício do poder, na sua difusão, regulação e execução historicamente acumuladas. Para George Lapassade (2004) seria a força instituinte na sua forma criativa e deliberada a ocupar as ruas, disparando e criando novas erupções e movimentos disrruptivos. De uma crise do imediatismo, uma revolta ganha espaço, corpo, voz e um milhões de faces a se multiplicar, curtindo, compartilhando, protestando. Uma moeda de 25 centavos deflagrou a maior manifestação da história Brasileira, ela trouxe consigo o peso da história, nunca se viu moeda tão cara, tão pesada. Ela trouxe a insatisfação, a incerteza, o medo, a raiva, sobrepostas nas camadas de soterramento, de silêncios forçados, aplacados por um mercado de maracutáias, privilégios, cotações, propinas, interesses e nepotismo.

Toda essa fúria que irrompe das ruas advêm do mal estar experimentado por duas ou três gerações que herdaram-no de mais duas ou três outras gerações., isso quer dizer que, foge à compreensão imediata dos fatos, remete a outros tempos. A dor dessa gente é antiga e farta de farsas e falsos profetas, secas intermináveis que contornam inclusive os avanços tecnológicos sofisticados da recente historia humana. O exercício do poder político que legitimadamente deveria representar os interesses da maioria, dentro de uma margem utópica, aviltou suas próprias maiorias, as que os elegeram, dentro de uma margem de democracia. 

Não são apolíticos, são anti-politicos, para uma geração que cresceu entre o hedonismo e o individualismo, ser ativo politicamente e membro de uma coletividade manifesta, eram apenas sonhos de outras gerações, de outros tempos, ou ainda eram coisas que uma certa industria cinematográfica capturou para nunca mais libertar. Para muitos sair às ruas, lutar por ideais coletivos, reivindicar interesses e defender opiniões eram apenas coisas de filme. Se enganaram aqueles que assim declararam o fim dos movimentos coletivos, o fim das utopias? Não imaginavam que tais forças, hora inertes, acordariam na mais improvável das situações?
A própria ignorância reproduzida historicamente pela maquinaria das governamentalidades faz com que as forças revoltas não se apressem em discernir alvos, lugares, objetos, tudo é simplesmente monumento da história do poder, monumentos do poder que os insultou, que os abusou e violou, a seus pais e mães, irmãs e irmãos, avós e avôs. Que deixou como herança um fundo oco e vazio, uma mascara disforme e apertada. 

Não interessa se foi Niemeyer ou Portinari, pouco importa, agora são pixados e destituído de seu valor erudito e passam a ser meros adornos, partes de uma cena que extrapola seus significados mais genuínos. 

Agora quem protagoniza são as pessoas e suas reivindicações. A impressão que sentimos,
digo porque senti junto, que Brasília nunca esteve tão próxima do povo quanto como vi pela televisão hoje. 
Mas isso é apenas uma pequena parcela da dimensão dos fatos.

Não são só os monumentos de concreto os alvos da revolta, da busca pela verdade e pelos direitos acordados democraticamente, mesmo que como meras mercadorias. Inclusive certas praticas sociais contaminadas e agenciadas pelo poder difuso e polimorfo são também alvos da retração histórica, o Futebol, a copa das confederações a Copa do Mundo. Deixou-se de lado a vaidade e o cinismo folclórico e cultural, o Brasil não pára na Copa, o Brasil emerge de sua inércia e renuncia pelo futebol do poder, dono de uma fatia econômica polpuda e onde se operam grandes lavagens de dinheiro e de divisas. Entende-se, nas ruas, que o momento é outro, não se pode servir um prato nacional com preço de um banquete internacional, ninguém é trouxa, esta-se de saco cheio. No vazio deixado pelas consciências amortecidas, as votações criminosas acontecem nas plenárias legislativas, as impunidades e as corrupções re-arranjam-se sob o entretenimento das massas, pelas costas, avilta a dignidade e o saber popular, “avilta a renuncia do individuo em nome da coletividade, da sociedade, do toma lá e da cá do pacto social” (Pelegrini, 1990).


O futebol saiu do jornal, a novela se calou, a maquina comunicacional se retroalimenta minuto a minuto convulsivamente como fazia antes, só que agora algo que se precipita para fora dos estúdios, das previsibilidades, das visibilidades. O real da insatisfação saltou à tela e roubou a cena. O povo telespectador, atônito, acostumado com os telejornais tediosos cheios de mentira, violência e corrupção e das telenovelas delirantes e artificiais, se viu capturado, desconfiado com a atual situação. Ao mesmo tempo, se comove e sente o sangue lhe subir a espinha, sentido-se orgulhosamente brasileira(o) como pouco se sentiu na vida, mas ainda desconfiam. Isso não passaria de uma agitação puramente de arruaceiros? Vândalos? Rebeldes sem causas? jovens mimados, novos candidatos nas próximas eleições? Que virou moda protestar? Hora do jeito que esta não dá. Pode ficar Pior ? Pode. Melhor pra quem? Quem fará proveito dessa revolta?

Espera-se que a instituição política e seu exercício no Pais tomem novos rumos e preencha as rachaduras evidentes no tecido social, inúmeras e profundamente instaladas. Os embates entre classes, seguimentos, grupos, interesses, objetivos, ordens é inevitável. O confronto entre policiais e outras instancias de poder revelam tal recrudescimento, fonte das mais primitivas feridas calcadas no fundo civilizatório. Ao mesmo tempo, que se acorda pela insatisfação coletiva a voz das ruas, acorda-se as forças repressivas adormecidas desde o seio ditatorial no pais. A força radical da repressão política e de controle social rapidamente se articula, sem olhos e sem consciência, munidas de gás pimenta a bombas de efeito moral, bela metáfora. 

Acorda-se também o sadismo da tortura, do medo, da perseguição, da disciplina. A força reacionária, agora envolta de outros panos e emblemas, instituições e tecnologias assiste a tudo e espera para agir, desmembrando, confundindo, desarticulando, coibindo, silenciando. Outras instancias populares podem encontrar pontos de embates, e serem intencionalmente e oportunamente colocadas como forças opostas, em franca oposição, pois dividindo se governa.

O silencio dos ditos representantes políticos é descaso ou tática? Parecem estar atônitos, apanhados de surpresa com uma turba de gente que autenticamente detêm o poder. A força evocada pelas manifestações não devem ser desperdiçadas, pois as fraturas no tecido social em tais proporções, se tornaram insuportáveis.

No interior do Pais, a pior estirpe de políticos, faz o que bem entendem, inescrupulosamente expropriam dinheiro publico atendendo a interesses puramente partidários e pessoais. Ocupam o espaço político como se ocupam de suas fazendas, tratam o povo como tratam seu gado, quem sabe, pior, bem pior, simples coisas, números, fonte de agenciamento monetário e eleitoral. A maquina publica se tornou a Casa Grande (Gilberto Freire), onde os coronéis despacham suas ordens e interesses, realizam acordos escusos e perversos, onde preparam sua manutenção no poder. Essa completa deformação do tecido político é que se tornou insuportável. A emergência de mudança é e deve ser irremediável com meras revogações, pequenos acordos e promessas, pequenos “cala-bocas”. Deve adquirir a dimensão de uma transformação na política, no modo como se faz política no Brasil.

Vários caminhos podem ser seguidos e tomados, inclusive de uma nova tirania ainda mais perversa e insana. Pois a massa nem sempre esta com a razão, e as vezes essa razão não equivale ao bom senso. Nada esta decidido, há que se desconfiar, pois o poder é capaz de tornar a tudo modulável, equalizável, manipulável. 

Embora, nesses poucos dias de grande gloria coletiva pode-se afirmar que as marcas já são suficientemente visíveis e profundas, mesmo que para outras gerações, a marca de que é possível lutar por suas convicções e ideais, de que é possível, de forma coletiva, ser ouvido e romper com a invisibilidade inebriante do individualismo hedônico e niilista.

Cada professor esta mais feliz hoje, acordou com uma sensação de que a verdade estava de volta em sua boca, em suas palavras, de que não estava falando para as paredes ou sozinho em um monologo chato e fora de moda. Cada aluno acordou hoje mais próximo da história, inevitavelmente dentro dela. De que o povo à rua não é só para comprar e sim protestar, jamais equivalentes ou duplamente agenciáveis.
Fala-se em prejuízos, fala-se de um pequeno grupo de radicais onde a lei do poder, agirá com toda sua força e minúcia. Por que não falar nos ganhos, o que se ganha, mais direitos?Melhores? Mais justos?

Decerto haverá prejuízos, não há gloria sem lagrimas.

Quem arcará com tais prejuízos? De quem é o prejuízo, quem vai pagar a conta?

As cartas estão lançadas, os dados estão rolando, “o tempo não para”. Conseqüências, legitimação, partidarismo, comissão popular de auditoria publica, comissões de transparência, educação de qualidade e para todos, trabalho e segurança são temáticas que atingem a espinha dorsal do Pais, que Brasil queremos? 

De que Brasil Falamos?

De fato, deve-se ter em vista, a amplitude territorial e cultural do Pais, pois, como se esta mostrando, as revoltas se concentram nas capitais e cidades de grande e médio porte, e em alguns casos, em pequenas cidades. Cada estado levanta suas questões, demandas, interesses, as vezes possuem aspectos comuns noutros divergem-se, sem necessariamente serem equivocados ou incabíveis. O fato é, o povo na rua pode transformar, modificar, apontar caminhos.